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Uma aventura nas altas latitudes: Patagônia a bordo do Mar Sem Fim

“Não posso descrever o prazer de ver estas imóveis e, logo, sublimes massas de neve que jamais derretem e parecem condenadas a durar enquanto este mundo resistir”

“Diversas geleiras desciam em rotas serpeantes da pilha de neve para o mar; podem ser comparadas a grandes Niágaras congeladas e talvez essas cataratas de gelo sejam tão lindas quanto as de água que se movem”.

Os relatos de viagens do século XIX são econômicos em adjetivos. E seus autores discretos quanto aos sentimentos que experimentaram. Há raras exceções.

O cenário que cerca os canais da Patagônia produziu tal sensação no sisudo ex- médico, ex-sacerdote anglicano, finalmente, naturalista, que Charles Darwin não se conteve ao redigir o Diário do Beagle.

Você também pode conhecer estas plagas, habitat de lobos- marinhos, pingüins, orcas, e dezenas de tipos de pássaros, entre outros, a bordo de um barco moderno, seguro, e bem equipado.

A Patagônia no Mar Sem Fim (primeiro barco a motor, privado, brasileiro, a navegar na Antártica) é mais que uma viagem: é uma aventura marcante.

Entre outras atrações é possível uma cavalgada na área protegida da caleta Ferrari (comprada pelo milionário norte- americano, dono da marca North Face, com objetivo de preserva-la para as futuras gerações) cruzando rios, vales e montanhas, freqüentada por bandos de cavalos selvagens, que termina numa imensa “Niágara congelada” capaz de transformar um médico em poeta…

Atualmente há um esforço internacional para preservar este paraíso ainda pouco tocado porque, voltando a Darwin, “ há tamanho esplendor nessas montanhas cobertas de neve… que uma dessas paisagens, meramente colorida pelas nuvens passageiras, proporciona um banquete para a mente”.

Mas o ambiente é apenas um dos atrativos. Um passeio de bote pode te levar para o contato íntimo com uma geleira multimilenar, testemunha da última glacição, já lá se vão uns 12 mil anos, abordada a poucos metros de distancia para que se possa ouvir, em meio ao silencio do “fim do mundo”(expressão cunhada por Julio Verne em romance homônimo inspirado nesta parte do mundo), os sons que vêm dos intestinos do planeta. Acredite, o deslocamento da massa de gelo produz grunhidos de arrepiar qualquer criatura.

De tempos em tempos enormes pedaços se desprendem mergulhando no mar bem na sua frente. O silencio mais uma vez é quebrado. Um barulho surdo ecoa. Impressionante. Remete a um tiro de canhão.
Nos canais da Patagônia é assim: mesmo usando o superlativo a gente não consegue descrever. É preciso estar lá para sentir.

Nos deslocamentos do Mar Sem Fim, num ambiente aconchegante, com calefação, no CD Player Nelson Freire toca os Noturnos de Chopin, ou Clara Haskil vai de Mozart (ou você prefere Miles Davies, Stones ou Bebo e Cegalla? A trilha sonora é especial e, assim como a comida, um dos orgulhos de bordo), com uma taça do melhor vinho tinto na mão, os viajantes ficam encantados com a quantidade de cachoeiras que despencam de picos altíssimos em direção aos canais.

Uma vez nas baías, fundeados, a atração são os passeios a pé até lagos de água doce, suspensos poucos metros acima da enseada fechada, repletos de trutas, em contato íntimo com a natureza.

Enquanto isto, nos costões laterais, cormorões assustados procuram defender seus filhotes atacados por gaviões. A memória volta a Darwin: “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.

A avifauna ainda incluí espécies exóticas como as coloridas Bandurria – Baya, e os patos Cauquém.

Fora da época do defeso o melhor programa é colocar armadilhas para centojas ( King Crab), de noite, nas pequenas caletas. Na manhã seguinte basta recolher a iguaria que transforma nossos almoços em deliciosos banquetes regados a vinho branco. Depois do café você prefere grappa, ou um poire estupidamente gelado?

O passeio prossegue, e desembarcamos no Iate Clube Micalvi, em Puerto Williams.

No charmoso bar, que fica no salão de um rebocador encalhado, você pode topar com os maiores nomes da vela mundial como a francesa Isabelle Autissier (primeira mulher a completar uma regata de volta ao mundo em solitário), o norte- americano Skip Novak (legendário campeão da Whitbred), ou o russo-francês, Oleg Belly (percussor das viagens privadas em veleiro para a Antártica). E bater um papo com estas lendas vivas, trocando experiências, enquanto degusta um Pisco Souer, especialidade local. Eu já tive esta oportunidade um par de vezes. Que tal?

Você quer conhecer Puerto Williams? Muito fácil. Enquanto as crianças passeiam de bote, atrás de golfinhos, eu te levo até a rua principal onde está a proa do rebocador Yelcho, da Armada do Chile, que resgatou a Expedição Britânica (tripulantes do mitológico Endurance, esmagado no gelo), isolada na ilha Elefant, no episódio final da épica viagem de Sir Ernest Schackleton para a Antártica em 1916.

Vamos juntos prestar uma homenagem ao irlandês que soube transformar a adversidade numa extraordinária saga marítima.

Este mito também freqüentou a zona que eu me ofereço pra mostrar em detalhes, a bordo de um trawler com 76 pés de comprimento (pouco mais de 20 metros).

Não perca a oportunidade de conhecer a região que encantou Darwin, Julio Verne, Schackleton e alguns dos maiores nomes da navegação polar. É pura emoção, prazer, deslumbramento e paixão. Uma viagem para poucos.

O Mar Sem Fim está disponível para charters com duração de uma semana. Ou mais, a combinar. Acomodações para seis pessoas em três cabines com banheiros privativos.

O ponto de partida é Ushuaia. A cidade, encravada nas encostas dos Andes, é uma espécie de capital das atividades de turismo de aventura na América do Sul.

Um voo até Buenos Aires, depois, é preciso pegar outro avião para Ushuaia.

A partir de então você, e seu grupo, já ficam hospedados no Mar Sem Fim.

Até lá.

João Lara Mesquita

PS
Clique aqui e veja o documentário que produzi na região.